Dança Psicodélica – O corpo como elemento transcendente

 

“O mistério está no corpo e no modo como o corpo se trabalha na natureza“.
– Terence McKenna

O que é “Dança Psicodélica”???
O que é dança todo mundo meio que sabe né… mas e o que é psicodélico?

Muitos acham que quando usamos essa palavra estamos nos referindo a substâncias alucinógenas, mas na verdade é algo bem mais complexo do que isso!

O termo “psicodélico” foi sugerido pelo psiquiatra britânico Humphry Osmond, vanguardista da pesquisa psiquiátrica com psicotrópicos, ainda na década 50, mais precisamente em 1957. Osmond se inspirou na junção de duas palavras gregas: (delos) revelação e (psychè) da mente.

????Portanto a psicodelia é a manifestação da nossa essência, é a revelação do que está contido em nossa mente!

A terminologia “psicodélico” se estende então a todos os esforços que levem a uma percepção ampliada da própria consciência, e que tenham a intenção de representar esse mundo interior da psique.

Desta forma a estética psicodélica pode se fazer presente em técnicas, comportamentos, épocas, lugares e contextos diversos, envolvendo experiências de alteração dos sentidos e da percepção que, não necessariamente, precisam ser alcançadas pela ingestão de substâncias psicotrópicas.

Quando nos afastamos do nosso corpo e do contato com nós mesmos nos sentimos vazios, triste, ansiosos, etc. E não raramente fazemos o que? Vamos em busca de algo que preencha o vazio interno e nos traga a sensação de felicidade, podendo acontecer a busca pelo uso de substâncias psicotrópicas, algo que, principalmente, entre os jovens é muito comum e pode acabar criando uma situação de vício e desequilíbrio na vida da pessoa.

A Dança Psicodélica chega com o desejo de trabalhar esses impulsos que o ser humano tem de alterar a consciência, aumentar o entendimento do que se está vivendo ou viveu, trazer autocompreenssão, autoconhecimento (corporal e psicológico) e então reduzir a necessidade do uso de substâncias nocivas para o corpo, instaurando formas de se alcançar estados de consciência alterada por outros meios como os movimentos do corpo, respiração, meditação e exercícios de visualização criativa.

O projeto “Dança Psicodélica” nasceu a partir do Solo de Dança Contemporânea – Corpo Psicodélico – (apresentado como trabalho de conclusão de curso – Dança-UFU). Ao longo da pesquisa eu levei meu corpo para viver várias experiências dos chamados ENOCs (Estados Não Ordinários de Consciência) como hipnose, técnicas de respiração de muitos tipos, meditação, ioga, danças ritualísticas, teatro selvagem, estados de exaustão, etc. Em todas essas experiências eu percebi algo em comum: o estado alterado de consciência, o estado de transe, acabava acontecendo em todas. A palavra transe é derivada do verbo latino “transire”, e significa atravessar, passar de um estado para outro.

Investigando os estados de transe fui aprendendo a conhecer e respeitar mais meus estados mentais, pois quando estou “do outro lado”, “atravessada” vejo meus momentos de loucura, euforia, depressão e desejos ambíguos como manifestações normais da dinâmica da psique humana, e não com patologias graves como buscam fazer soar algumas linhagens da medicina tradicional.

O estudo dos estados de transe faz do corpo uma ponte para me desfazer das couraças psíquicas e dos condicionamentos culturais limitantes que nos cercam diariamente na sociedade em que vivemos. Pois quando entramos em transe estamos tendo uma experiência em primeira pessoa, e é dá experiência que parte a formulação para o saber, seja ele de qualquer tipo.  Em estados mais amplos de consciência, temos mais possibilidades de conhecer a nossa pisque, de perceber os lampejos expressivos do nosso inconsciente e então termos maior capacidade de exercer a nossa autonomia. A palavra autonomia é composta de dois termos gregos auto (autós, de si mesmo, por si mesmo) e nomia (nomos, que significa lei ou norma). Portanto autonomia seria dar-se a si mesmo suas próprias normas, regrar-se por si próprio.

Geralmente somos acostumados com o contrário, as leis e as normas vêm de fora pra dentro. Quando crianças e adolescentes nos ensinam a obedecer às regras e ponto final. Calando os impulsos orgânicos do corpo, abafando nossos, gestos, intuições, sentimentos e desejos.

Mesmo o corpo sendo o nexo do mistério da vida, a nossa cultura ocidental, ainda calcada nos paradigmas da ciência materialista- realista, lamentavelmente nos joga para fora do corpo, trocando a nossa auto identidade e auto percepção por sistemas institucionais, políticos, religiosos, por passeios no shopping, pela obtenção de objetos inanimados, máquinas, coleções, etc.  Está na hora de revertermos essa situação!
Conforme aponta Terence Mckenna, um grande estudioso da Natureza e dos seus potenciais Psicodélicos:

“O aumento da atenção sobre si, à experiência sentida pelo corpo, a valorização do autoconhecimento é o que os estados psicodélicos estão trazendo de volta para nós. Os estados alterados de consciência, nos levam de volta aos sentidos do corpo e reavivam o domínio dos valores autênticos de nós mesmos. Não se trata apenas de uma jornada para o inconsciente humano ou para os bardos fantasmas da nossa civilização caótica. Se trata de uma jornada para a presença da Mente de Gaia que nos criou, se trata de perceber a Natureza como uma totalidade coerente, um ser pensante, sensível, intencional. Quando os valores culturais criados pelo machismo dominador, pela ciência, e pelo pensamento linear são dissolvidos, o que está esperando por nós é a pura consciência de que nossos corpos e todos os seres viventes estão ligados uns aos outros, intrinsicamente, enraizados e integrados com a Terra.”

Terence Mckenna foi um escritor, filósofo, etnobotânico, psiconauta e historiador de arte norte-americano especializado em xamanismo e em etnomedicina (tem palestras incríveis dele no youtube) ele foi um dos autores que me ajudaram a dar contorno para as coisas que eu queria trazer pra Dança Psicodélica.

Nos momentos em que tenho a psicodelia atravessando meu corpo fica mais fácil retomar a conexão com a Mãe Natureza, dissolver algumas normas e perceber que meu corpo não é formado apenas pela parte física/material.   Ao entrar em estados de transe fui identificando sensações provindas da minha energia pessoal, efeitos que chegavam nos meus órgão físicos mas que não advinham deles.

Eu estava cada vez mais curiosa para entender o que meu corpo estava querendo me dizer e fui procurar autores que pudessem me ajudar. Descobri o maravilhoso Indiano Dr. Amit Goswami – professor, pesquisador e escritor na área da Física Quântica, conhecido por defender a substituição do materialismo pela consciência.

Em seu livro – O Médico Quântico (2006) o Dr. Amit Goswami fala sobre a existência do: corpo vital, um corpo mais sutil formado de energia. Segundo o Dr. Goswami o corpo vital foi reconhecido pela ciência moderna na década de 1980. O corpo vital no ponto de vista do Goswami é a forma como se manifesta as emoções no corpo humano, na região dos vórtices (chakras), e esses, por sua vez correspondem energeticamente a certas glândulas do corpo. Essa energia vital é chamada de muitos nomes; na medicina Ayurveda Indiana chamam-na de prana, na medicina chinesa tradicional é chamada de chi, em ambas tradições ela tem um papel importante para o desenvolvimento dos tratamentos médicos.

Desta maneira a descoberta do corpo vital nos permite compreender outro fenômeno importante – os chackras. Quando nos emocionamos essa emoção é acompanhada não somente por um efeito físico e um pensamento mental, mas também por um sentimento. O que sentimos? De acordo com Goswami sentimos o movimento da energia vital que acompanha a emoção. Se você é uma pessoa com tendência a ser mais intelectual provavelmente sentirá a energia vital no alto da cabeça. Isso porque segundo Goswami quando usamos o intelecto é para esse ponto que a energia vital se direciona, para o chakra da coroa. Se você não é, predominantemente, intelectual você sentirá a energia em outros locais do corpo. O mais frequente deles é o chakra do coração, onde se manifesta a energia amorosa. Recorde-se de algum momento de sua vida em que você percebeu que estava apaixonado. A energia vital é manifestada através de palpitações, formigamentos, calor e expansão. Em momentos de insegurança sentimos a energia saindo como “borboletas” de nosso estômago, movimentos do chakra esplênico. Em resumo, o autor explica que o corpo vital é formado, em sua grande parte, pelos chakras e sua função é a manutenção do corpo físico. Os chakras são os lugares onde a consciência produz simultaneamente o colapso do corpo vital e do corpo físico. Possuímos mais de 121 mil chakras, 21 grandes e 7 principais e vitais. O movimento natural e saudável dos chackras é circular, decrescente para crescente, de fora para dentro, como dois funis encaixados pela boca menor.

-> Segue abaixo a descrição dos sete principais chakras (nomenclatura em sânscrito e em português), englobando a função vital, os órgãos físicos correspondentes, os sentimentos vinculados, frase e afirmações:

Chakra Muladhara ou Básico: Atua na função de eliminação, componente essencial de manutenção do corpo chamado catabolismo. Os órgãos associados são os rins, a bexiga e o intestino grosso (reto e ânus). Sentimentos: instinto de sobrevivência, arraigamento egoísta, competitividade; confiança, medo, insegurança. Frase: Eu Sou. Afirmações: Sinto-me seguro e pleno. Sou grato a todos os desafios e aprendizados que a vida me proporciona.

Chakra Svadhistana ou Genésico: Atua na função da reprodução. Os órgãos associados são útero, ovário, próstata e testículos. Sentimentos: respeito por si e pelos outros, apetite sexual. Frase: Eu sinto. Afirmação: Eu honro a minha energia sexual, amo, valorizo e respeito o meu corpo.

Chakra Manipura ou Gástrico: Atua na manutenção, componente importante chamado anabolismo. Os órgãos vinculados são estômago, intestino delgado, fígado, vesícula biliar e pâncreas. Sentimentos: dignidade, valorização de si, orgulho, raiva, baixa auto-estima, ressentimento. Frase: Eu faço. Afirmação: Sou livre para escolher, e sempre escolho o que é melhor para mim.

Chakra Anahata ou Cardíaco: Atua na função da autodistinção (distinção entre o eu e o não-eu). Os órgãos associados são o coração e a glândula timo do sistema imunológico. Sentimentos: amor universal, romantismo, paixão, perda, pesar, mágoa e ciúme. Frase: Eu amo. Afirmação: O amor é a resposta para tudo na vida. Me amo e sou amado incondicionalmente.

Chakra Vishudhi ou Laríngeo: Atua na função da auto-expressão. Os órgãos vinculados são o pulmão, a garganta e os órgãos da fala, os órgãos da audição e a glândula tireóide.  Sentimentos: celebração, liberdade de expressão, frustação e culpa. Frase: Eu falo. Afirmação: Me comunico de forma aberta e honesta com todas as pessoas.

Chakra Ajna ou Frontal: Também chamado de terceiro olho, este chakra atua na função vital da nossa evolução, é o chakra da energia intuitiva. Os órgãos ligados a ele são os órgãos do cérebro médio e do cérebro posterior, os olhos e a glândula pituitária. Sentimentos: compressão clara ou confusão. Frase: Eu vejo. Afirmação: Eu vejo toda experiência como fonte de aprendizado.

Chakra Sahasrara ou Coronário: Atua na função do nosso autoconhecimento e por isso os órgãos são o neocórtex e a glândula pineal. Sentimentos: felicidade, satisfação e desespero. Frase: Eu compreendo. Afirmação: Eu honro o divino que há em mim.  Estou plenamente consciente do meu papel neste mundo.

Percebo que agora, mais do que nunca, a busca pela autoconsciência e pelo autodomínio vem crescendo e, felizmente, podemos contar com autores geniais e com várias técnicas que nos dão suporte para entrar em estado de transe, estado meditativo, um estado avaliativo de nós mesmos. A Dança Psicodélica nasce para somar e ser mais um modo de conhecermos nosso corpo por completo, de dar atenção ao que ele quer nos comunicar, de dar voz aos saberes do corpo.

“O corpo é esse lugar único existencial, sobre o qual se sobrecarregam, se recolhem e se curvam todas as determinações da vida. O corpo é esse entre-cruzamento do visível e do invisível, do dentro e do fora, do que se toca e do que é tocado. Ele não é uma coisa, nem uma ideia, mas o que faz existir uma coisa e uma ideia para nós. O corpo é essa espiral, essa circulação, esse enlaçamento, a dobra de meu interior e de meu exterior, entre o mundo e o eu, a visibilidade e a opacidade.” (Uno Kuniich)

Nós somos a flauta, mas é Shiva quem sopra o sopro!
A Paz de Jesus esteja em todos os corações!

Com amor, Carol Vaz.
@lorac_vaz

Uma realização:

Registros do 1º WorkShop de Dança Psicodélica

13/04/2018

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