Terapeutas do deserto – A Psicologia transpessoal e a espiritualidade

TERAPEUTAS DO DESERTO –  A Psicologia transpessoal e a espiritualidade

Não há oposição entre o conhecimento de si mesmo que a psicologia propõe e o conhecimento de si mesmo que a espiritualidade propõe. Porque uma psicologia que não se abre a um itinerário espiritual corre o risco de nos enclausurar e, mesmo nos desesperar. (…) Assim, o que impressiona em um Ser Humano que entrou neste caminho de transformação é, ao mesmo tempo, sua grandeza e humildade. Ele sabe que é pó e que ao pó retornará. Mas sabe também que é luz e que à luz retornará. E o que é o Ser Humano, senão esta poeira que caminha para a luz e que dança nela?”

Jean-Ives Leloup (*Terapeutas do Deserto – de Fílon de Alexandria e Francisco de Assis a Graf Durckheim)

Ao final da década de 50, Maslow dedicou-se ao estudo de indivíduos que manifestavam e relatavam “experiências transcendentes”, o que denominou de “experiências culminantes” – peak experiences.

Estes estudos o levaram a caracterizar estas experiências culminantes como “um estado de consciência superior”, estando para além do Self, definido por Maslow como o núcleo organizador da psique, tornando sua tese muito próxima das ideias de Jung, temática fundamental para o desenvolvimento conceitual da Psicologia Transpessoal.

Em 1962, Maslow delineou uma nova abordagem psicológica, cuja ênfase estaria nesse patamar transcendente do ser humano:

[…] a psicologia humanista, terceira força, foi uma transição, uma preparação para uma ainda mais elevada, quarta psicologia, trans-humanística, centrada mais no cosmos que nos desejos e interesses humanos, além do humano, da identidade, da atualização do ser e do resto.

Em 1967, um grupo de trabalho formado por Abraham Maslow, Anthony Sutich, Stanislav Grof, James Fadiman, Miles Vich e Sonya Margulies se encontraram na Califórnia, com o propósito de criar uma nova psicologia que pudesse honrar o espectro inteiro da experiência humana, incluindo os vários estados incomuns de consciência. A esta quarta força da psicologia deram o nome de Transpessoal, que substituiu o termo inicial “trans-humanístico”. Posteriormente foram fundadas a Association of Transpersonal Psychology (ATP), o Journal of Transpersonal Psychology. Em 1975, Robert Frager fundou o (California) Institute of Transpersonal Psychology.

A visão transpessoal de Maslow: 

Um domínio que contém a atualização do ser, mas vai além, atingindo o reino da transcendência. Esse nível supremo é tão importante que aqui já não se pode mais falar de desejos ou motivações, mas metanecessidades ou metamotivações (metaneeds), a necessidade humana de atingir e viver na verdade, beleza ou transcendência.

A visão transpessoal de Stanislav Grof: 

A consciência não se restringe ao Ego e ao inconsciente individual, não é restrito as experiências pessoais e fantasias inconscientes. Existem também os Domínios Perinatal e Transpessoal. Tais domínios não seguem uma ordem linear rígida. Metaforicamente, cada nível representa uma oitava musical de causalidades, daquilo influencia o modo de estar no mundo. Nem todas as causas se restringem ao domínio biográfico, à história pessoal. Existem também causas perinatais e transpessoais, que operam ao mesmo tempo que as causas biográficas, a todo momento na vida das pessoas, não apenas em estados ampliados de consciência. Porém, a transformação e cura da consciência só acontece em estados ampliados da categoria holotrópica.

dois modos de consciência: Hilotrópico e Holotrópico. Ambos são importantes e essenciais, nenhum é preferível em detrimento de outro.

O hilotrópico é o modo orientado para a matéria, a realidade material, tempo e espaço determinados na ordem cronológica, espaço tridimensional, corpo físico biológico. É a realidade vivida no cotidiano.

O modo holotrópico é um modo orientado para a totalidade, transcendência dos limites espaciais, temporais, de identidade individual. É a realidade experimentada nos estados ampliados de consciência, onde pode se vivenciar alteração da temporalidade (alteração da duração do tempo, expansão ou retração, voltar ou avançar no tempo), da espacialidade (expansão ou retração, perda de limites) e da identidade (identificação com outras pessoas, parentes próximos ou distantes, pessoas em outras épocas e lugares, identificação com arquétipos, entidades e seres de outras realidades, identificação com outros seres vivos – animais, vegetais e minerais, identificação com fenômenos da natureza, processos biológicos, consciência dos processos biológicos do próprio corpo de maneira precisa).

Uma característica dos estados holotrópicos de consciência é que podemos experienciar do ponto de vista subjetivo aquilo que, no estado hilotrópico, são percebidos de maneira objetiva. Por exemplo, somos capazes de termos a experiência de sermos um animal, algum tipo de planta, um membro de outra cultura distante no tempo e no espaço, do ponto de vista deles. Nos tornamos e nos identificamos, sabemos e sentimos exatamente como é ser tal ente do mundo.  

A visão transpessoal de Sutich: 

Estudo empírico das metanecessidades individuais e coletivas que considera a consciência unitiva, experiências culminantes, valores do ser, êxtase, experiências místicas, arrebatamento, a transcendência de si, a consciência cósmica, a vasta sinergia individual e da espécie, sacralização do cotidiano, humor cósmico, consciência sensorial, responsividade e expressão elevadas.

A Abordagem Integrativa Transpessoal é um conhecimento transdisciplinar, que transita entre distintas áreas do conhecimento, a partir de uma visão sistêmica não-linear, considerando o que pode ser aprendido através de múltiplas perspectivas, pautando-se por uma racionalidade complexa, considerando suas complementaridades e limites.

Reúne, teoricamente, abordagens psicanalíticas, comportamentais, analíticas, humanistas, transpessoais, positiva, psicodrama, junguiana, observando a coerência entre os elementos e aspectos particulares a cada uma.

Importantes fatores a serem considerados são, a capacidade do terapeuta em inspirar confiança provendo o paciente de diversas perspectivas de mundo, através de uma escuta de qualidade, demonstrando estar presente e criando um ambiente que propicie a presença consciente do paciente, inserindo neste contexto, da subjetividade individual, elementos experienciais da própria vivencia do indivíduo e sua relação com os aspectos antropológicos integrados à visão de mundo deste. Mente – sociedade – cultura – espírito se conectam através da dimensão transcendente, sagrada, onde valores e atitudes traspassam o individual e reflete-se no coletivo, agente de transformação experiencial.

A Visão transpessoal de Pierre Weil: 

A Psicologia Transpessoal é o estudo e a aplicação dos diferentes níveis de consciência em direcção à Unidade Fundamental do Ser.

Ao longo das duas últimas duas décadas, a Dra. Vera Saldanha vem trabalhando e desenvolvendo os aspectos estruturante e dinâmico da Abordagem Integrativa Transpessoal (AIT).

O Aspecto Estrutural versa sobre o corpo teórico da Psicologia Transpessoal fundamentado em cinco conceitos – Conceito de Unidade, Conceito de Vida, Conceito de Ego, Estados de Consciência, Cartografia da Consciência.

O Aspecto Dinâmico versa sobre o Modelo da Abordagem Integrativa Transpessoal pautado em dois elementos – Eixo Experiencial e Eixo Evolutivo.

Os elementos do Aspecto Estrutural são,

Conceito de Unidade – Renascimento – representa o ápice da dimensão superior da consciência, no qual há síntese das polaridades e a convergência dos processos dos diferentes níveis da consciência, da cartografia.

“Unidade entre Eu e o Universo, desaparecimento da tridimensionalidade do tempo.” Pierre Weil. Traz a ideia de desidentificação, desapego. Segundo William James “a prática pode mudar o horizonte teórico de duas maneiras – levar-nos a novos mundos, e assegurar-nos novos poderes.”

“O conhecimento é uma função do Ser. Quando há uma mudança no ser do conhecedor, há uma mudança correspondente na natureza e na totalidade do conhecido” Huxley.

Segundo a Filosofia Perene a Unidade é Transcendente. Na Psicologia Perene, adota-se o termo Absoluto – a Inteligência Suprema em nós. […]”a vida espiritual é parte de nossa vida biológica. É sua parte mais elevada.” Maslow.

Elementos comuns aos das experiências culminantes, platô elevado (Maslow) – Admiração, Mistério, Surpresa e Choque histérico.

Conceito de Vida (Morte e Renascimento) – fruto da dimensão atemporal é o aspecto necessário ao nosso desenvolvimento mais pleno, o Ser transpessoal.

Algumas reflexões de Weil acerca deste conceito,

  • Tudo na natureza se transforma e a energia que a compõem é eterna.
  • A vida mental e espiritual formam um sistema suscetível de se desligar do corpo físico.
  • A consciência é energia, é vida, não apenas vida biológica, física, mas também a da natureza, a do espírito – vida-energia – infinita nas suas mais diferentes expressões.

Conceito de Ego – constructo mental ilusório que tende a solidificar a energia mental em uma barreira, a qual separa o espaço em duas partes – o Eu e o Outro. Necessário à operacionalização da vida no cotidiano, se apresenta como o princípio da realidade. Contudo, a percepção do Ego não representa a totalidade das vivencias humanas.

As 5 etapas da construção do Ego (Souza)

  1. Dualidade – a ideia de separação do Outro
  2. Sensação – Projeção e Indiferença
  3. Reações impulsivas – processo instintivo – apego ao agradável, repulsa ao desagradável, neutralidade ao indiferente.
  4. Conceito de intelecto – ação do intelecto fortalecendo a estrutura do ego. O intelecto oficializa a situação do ego, que necessita deste para se “personalizar” a partir do estabelecimento de rótulos, o que impede o indivíduo de vivenciar plenamente, verdadeiramente suas experiências (conceito, preconceito, pós-conceito).
  5. Mente consciente – emoções e pensamentos discursivos que sustentam a “novela” do ego, justificando percepções instintivas, gerando reações egóicas através da identificação com conceitos e emoções interferindo na evolução do Ser.

A autoimagem, como subproduto do ego, promove a identificação do ego com a emoção, solidificando-se em uma entidade autônoma. A AIT tem por objetivo restabelecer a comunicação entre as imagens parciais do Ser através de técnicas que possibilitem o ser espontâneo e criativo no processo de aprendizagem.

O Ser Essencial, segundo Leloup, é o Ser capaz de transitar pelos lados de Luz e Sombra da psique, possibilitando a integração de paradoxos.

Estados de Consciência – Expandido, Alterado, Ampliado, Não Ordinário – estados de sonho, meditativo, sensibilizados através de exercícios transpessoais que possibilitam, de acordo com a abordagem integrativa transpessoal, acesso a conteúdos não disponíveis em estado de vigília.

Possibilita uma ampliação da percepção de diferentes níveis de realidade. “É a expressão e reflexo de uma inteligência cósmica que permeia todo o Universo e toda existência. Somos campos ilimitados de consciência transcendendo tempo, espaço, matéria e causalidade linear. Estados não comuns de consciência da psique humana.” (Grof)

O Eu como consciência em evolução que se manifesta para além das circunstâncias biopsiquicas e sociais que caracterizam a personalidade, integrando níveis evolutivos superiores e elementos perenes espirituais universais e cósmicos. (Assagioli)

Estados de consciência demarcatórios, segundo Weil são,

  1. Estado de consciência de vigília – ondas beta – 14 a 26 ciclos por segundo,
  2. Estado de consciência de devaneio – ondas alfa – 9 a 13 ciclos por segundo
  3. Estado de consciência de sonho – REM
  4. Estado de consciência de sono profundo – ondas delta – 1 a 4 ciclos por segundo
  5. Estado de consciência do despertar – saída do torpor
  6. Estado de consciência cósmica/plena consciência – despertar da verdadeira sabedoria

Cartografia da Consciência – onde se deu a experiência e qual o tipo de experiência – nos diferentes estados de consciência o indivíduo pode acessar conteúdos diversos, indicando tipos de vivencias e os níveis de consciência que está manifestando no processo de incursão à consciência. A cartografia indica e nomeia a experiência vivenciada, facilitando o entendimento do profissional e do indivíduo ao fazer o relato.

Para a psicologia transpessoal o mapa da consciência adotado é o elaborado por Ring, K., baseado nas pesquisas de Grof, Leare e More, et.al., e consta dos seguintes níveis,

Vigília – a consciência desperta. Abarca ações cotidianas ordenadas pela linearidade do tempo (passado, presente, futuro).

Pré-consciente – estão parcialmente ligados ao estado de vigília.

Inconsciente psicodinâmico – inconsciente freudiano – abarca experiências e emoções desde o nascimento até o momento atual do indivíduo.

Inconsciente ontogenético – abarca as vivências intrauterinas representando esta zona de transição entre os níveis pessoal e transpessoal (nascimento/morte).

Inconsciente transindividual – abarca uma série de experiências, dentre elas.

*Ancestrais – diz respeito às experiências de reviver episódios de sua linhagem genética.

*Paligenéticas – diz respeito às experiências de outros tempos e lugares levando á compreensão da lei do carma pois ultrapassa a linhagem biológica. Abarca a realidade dual que contrapõem dimensões de existência e não existência.

*Coletivas raciais – relativas a ações pretéritas de culturas pré-existentes da humanidade.

*Arquetípicas – relativas ao inconsciente coletivo de Jung, onde há relato de elementos simbólicos da experiência humana e imagens primordiais (geometria sagrada).

*Inconsciente filogenético – relativas às experiências para além da forma humana, sejam estas, orgânicas ou inorgânicas com mudanças nos reflexos neurológicos e fenômenos motores anormais (redes nervosas arcaicas). Segundo Grof, podem ser experienciadas vivencias com determinadas características – consciência de órgãos, tecido, célula, consciência animal, vegetal, de matéria orgânica e inorgânica, consciência planetária.

*Inconsciente extraterreno – estar fora do corpo, descrever encontros com outros seres e/ou entidades espirituais e de percepção extra-sensorial – psicocinese, telepatia, clarividência e clariaudiência, fenômenos mediúnicos.

*Superconsciente (supraconsciente ou inconsciente superior) – êxtase existencial, unidade, relação homem-cosmos.

*Vácuo – estado para além de qualquer conteúdo, nirvana, quando a consciência funde-se à mente Universal.

Os elementos do Aspecto Dinâmico dizem respeito à compreensão do Todo/Unidade. Para tanto, é importante a compreensão das partes e de seu processo constante de articulação. Esta integração se dá através dos aspectos dinâmicos dos Eixos Evolutivo e Experiencial, sendo a Unidade a meta do Ser.

“A representação do eixo horizontal indica a importância da congruência entre os elementos psíquicos: Razão, Emoção, Intuição e Sensação (REIS) permeados pelo eixo evolutivo, que nos traz a presença e necessidade do despertar e integrar os diferentes estados de consciência.” (Vera Saldanha)

Imagem – Antigos e Novos Terapeutas: Reflexões para a Clínica Contemporânea – Vera Saldanha

Assim inicio uma série de artigos onde compartilharei um pouco do que venho estudando na Pós Graduação em Psicologia Transpessoal da ALUBRAT.

Paz e Bem!

Texto por Daniela Monteiro – Terapeuta Holística – International Therapist Registray – ITR – 11393

danimonteiro.lotti@gmail.com / skype – danimonteiro.lotti / +5519 981546640

Um pensamento “Terapeutas do deserto – A Psicologia transpessoal e a espiritualidade

  1. Texto muito interessante e abrangente. Há sempre uma certa retórica ingênua quando se fala de espiritualidade. Neste texto, se observa maturidade, reflexão consciente e bom embasamento. Agradecida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *